| Eu, O Ser E A Dúvida
O quarto é uma selva de neurose. É ofegante a permanência, é
persistente o desejo, vontade tão própria de inovação.
Uma porta e uma janela são a novidade do cativeiro. Tudo se conhece; um
conhecer terrível e espantado que se dilui em interrogação.
Diz-me, ar perplexo de mundo, onde está a fuga? Tu, visitante assíduo
e perspicaz que vagueias por este meu Inferno. Chega-te à cama minha universal, repouso
dos sonhos que sugam o meu inquieto pensamento. Chega-te cá, meu perdido dualismo, que
reflectes sem saber quando e porquê, que divagas viajando na essência abstracta e pura
de um Não-Ser das coisas e não-coisas.
Não te rias de mim, vida repouso de deuses-demónios; não esperes que
eu tombe a teus pés, imagem talhada de Infinito.
Mata-me só hoje, nobre tempestade de silêncio; afaga os gritos
escaldantes de um ninguém que não é daqui, que viaja sem destino e com todos os
destinos, que...
Recôndito raio de sol que penetras com esforço essa janela
amedrontada, vem um pouco mais a mim, aquece, ilumina este meu Não-Ser, dúvida agitada e
agitante de ser Ser sem saber o que é Ser e porque é Ser na imensa frustração que é
ser Ser.
Vem tu também, imagem do meu último sonho que será sempre o primeiro.
Vem e envolve-me na pleura do teu fascínio, tu que tens o poder da deusa profana que me
encanta, que me beija o espírito, que me adormece em divino ócio.
Ângelo Rodrigues
In «Da Ressurreição do Espanto», Ed. Minerva, 1998 |