Para lá de todas as barreiras
I
O que somos e para onde vamos (!?) Sempre possíveis, provisórias e
pragmáticas, são as respostas que nos dão a Arte, a Ciência, a Filosofia e a
Religião, qual chupa-chupa que entretém as crianças enquanto os deuses-patrões
organizam a próxima sementeira de humana-Sabedoria. Depois de todas as tentativas para
entender o mínimo da razão de ser das "coisas" humanas, deparo-me com a mente
abarrotada de vazio e de angústia Kierkegaardiana. De qualquer forma sabemos que o
Universo é um vasto e potente Pensamento, uma imensa tapeçaria de irritantes hipóteses
sempre provisórias.
Inassimilável é esta Vida-Absoluto, qual deturpação da pureza
original que nos dá e nos tira, joga e ganha sempre. Este não-sei-quê de não
conhecível que tem muitas máscaras e vários disfarces: ora é Esfinge, Absoluto, Ser,
Verdade, Espírito, Nirvana e... Será talvez a "chave" que abrirá a porta
estreita e pesada do corredor xadrez da Vida-Eternidade. A Morte é assim, simples de
definir, de entender: é uma fechadura (...).
Sofremos a angústia Kierkgaardiana da proporcionalidade. Quanto mais se
conhece, maior é a ansiedade da desconstrução do Todo, maior é a sensação de vazio e
de distância - e tudo isto é terrível, e fatal, e desejável também, quando se bebe
uma cerveja com suor ao fim da tarde e se tem a cabeça cheia de grandes e pequenas
pedradas-quotidianas. Tirarei do saco das certezas provisórias, uma certeza quase bêbada
de marasmo citadino, de vazio e de cansaço poliglota de todas as linguagens, de azul-céu
e de azul-tempo.
Sendo um projecto-Homem, sou-sendo-sonhando-receoso de todos os
sentidos... todo o Infinito e algum Destino. Contudo, nada disto me é estranho, nada
disto me provoca os ancestrais arrepios do Medo porque é ele que segura com suas amarras
grossas de mistério, as traves desta nossa Vida-problema. Sei que a nossa condição
perante a cosmicidade-cíclica-obrigatória, é ter vontades derramadas e espantos
seleccionados. Quando atingir o meio-termo, um certo equilíbrio entre o Medo e a
Aventura-mística, saberei que tudo valeu a pena: talvez me encontre, talvez faça de mim
um para-Deus. Tudo isto me sabe a pouco. Tudo isto me embriaga de sono e cansaço. Tudo é
Possibilidade. Seremos verdadeiramente para lá de todas as barreiras.
II
Tudo é provisório... as barreiras deste tempo confuso e perplexo
dissolvem-se lentamente (como terra seca em água) nos rios de pensamento que correm para
o oceano das existências superadas. Outras barreiras surgirão para que "as
filosofias" possam brincar e jogar, saltando, correndo e tropeçando ternamente. Elas
são filhas das épocas, e cada época terá, por natureza e condicionalismos da mesma, as
suas barreiras peculiares. Quanto mais o filósofo jogar - saltando com ternura e
simplicidade - mais hipóteses terá de as ultrapassar. A ginástica filosófica implica
saltar barreiras todos os dias. Passar ao lado das barreiras é passar ao lado da Vida e
isso é próprio dos extremistas. A Vida está entre várias barreiras que podem ser
ultrapassadas por saltos estéticos, místicos, religiosos ou filosóficos; contorná-las
é morrer devagar e sem sentir.
Um pôr-de-Sol por exemplo, é uma barreira estética que exige do
hermenêuta do mundo e do destino-eterno - o homem filósofo - um salto impulsionado por
interrogação-espanto-de-absoluto e um aquecimento prévio e despreocupado no onírico e
no imaginável. Que estará para lá da barreira estética que é um pôr-de-Sol? Isso que
se diz de um pôr-de-Sol não pode ser nada de categorial, de científico, nem nunca
será. Um pôr-de-Sol não se explica nem se concebe pelo entendimento... é tão só, e
sempre provisoriamente, uma porta pintada com cores de luz pelo Infinito. É, sem ser só
e apenas, uma barreira luminosa e irradiante que convida ao eterno começo do filo-sofar
de um tempo, de uma geração, de um dia, de um minuto...
Ângelo Rodrigues
In «Da Ressurreição do Espanto», Ed. Minerva, 1998 |